Aplausos de tolos


Lembro-me perfeitamente de uma pergunta que fiz, ainda enquanto estudante do primeiro período de ciências sociais, a um renomado professor e pesquisador da área de segurança pública. Questionei sobre a existência de estudos voltados para compreender o porquê da violência, criminalidade, dentre outros assuntos de gênero. Tal questionamento foi feito durante um mini curso voltado para a temática da criminalidade e violência. A resposta, por incrível que pareça, soou no sentido da urgência do problema no Brasil. Compreender os porquês é extremamente complicado e demorado. Sendo assim, o mais importante, para o presente, é criar métodos capazes de entender o como acontece e, com isso, dificultar e inibir a criminalidade em locais específicos, marcadamente problemáticos.
Alguns anos se passaram e o Brasil continua convivendo com episódios de violência diariamente. Porém, ao contrário do que pode parecer, meu intuito não é publicizar minha indignação com a violência, mas sim questionar o “sucesso” da operação de combate ao tráfico de drogas recentemente ocorrida no Rio de Janeiro.
É fato que a humanidade, em qualquer época, sempre conviveu com crimes, de tal maneira que locais que possuem o privilégio de não tê-los são considerados anormais, exceções. Porém, a intensidade e sentido dos atos criminosos, em determinados locais, podem ter relação direta com as formas de determinados países encararem a questão da segurança pública. O Rio de Janeiro possui aproximadamente 1000 favelas no interior do município. Dessas, nove contam com Unidades da Polícia Pacificadora.
Seria o Capitão Nascimento um verdadeiro herói capaz de invadir e pacificar todas as 1000 favelas? Essa é uma pergunta geralmente realizada por alguns críticos, mas que considero demasiadamente branda e mal direcionada. A questão é: gostaríamos nós de ter todas as favelas do Rio de Janeiro invadidas pelas forças armadas e “pacificadas” através da violência (paradoxal, não?)?
Até quando continuaremos combatendo a violência através da famigerada polícia? Até quando nos recusaremos a compreender as causas da violência e continuaremos apoiando ações paliativas de invasões e ocupações bélicas? Até quando continuaremos espectadores de um teatro midiático repleto de interesses escusos? O mais interessante é notar a ambigüidade dos argumentos: em geral, as mesmas pessoas que criticam medidas como bolsa família, cotas em universidades, vale moradia, etc, são totalmente favoráveis às invasões da polícia. Quando o paliativo é voltado para “amançar” o pobre (e não concedê-lo locais de destaque), a classe média aplaude, feliz, como se fosse a verdadeira solução dos problemas. E assim continuamos espectadores ferozes do teatro da violência, extremamente rentável para mídia, políticos, empresas bélicas, e cemitérios.