Eleições 2010



Seria até mesmo estranho se, em meados do pleito eleitoral para presidente do país, um aspirante a sociólogo, em suas primeiras linhas de considerações, deixasse de falar sobre tal assunto. Porém, devido ao atribulado e evasivo processo eleitoral, cheio de denúncias retiradas de cartolas, boa parte das pessoas não leriam nem mesmo duas linhas mais sobre as eleições. Minha estratégia, então, é abordar um tema que está na moda e que, paradoxalmente, encontra-se totalmente relacionado com o processo eleitoral vigente, a saber, a questão ambiental.

Muitas são as teorias que versão a respeito das mudanças climáticas mundiais, desde as mais céticas até aquelas totalmente vinculadas aos movimentos ambientalistas e que culpam veementemente as ações humanas como as verdadeiras causas desse processo. O fato é que, a despeito de consensos, o tema ambiental entrou definitivamente na pauta e, especificamente no Brasil, foi capaz, praticamente sozinho, de angariar mais de vinte milhões de votos. Apesar disso, o fato é que diariamente o meio ambiente é discutido nos órgãos ambientais dos estados brasileiros e decisões são tomadas: criação de hidrelétricas, exploração de minério, loteamento de grandes regiões, siderurgias, indústrias, suinoculturas etc. Todos os dias novos empreendimentos são discutidos e implementados no Brasil. O “desenvolvimento deve continuar”, diriam muitos. E é interessante notar como boa parte dessas pessoas, afeitas ao desenvolvimento econômico, votaram no Partido Verde.

O fato é que não há desenvolvimento econômico sem exploração dos recursos naturais. Todos estão aflitos com as transformações da natureza. Como conciliar as duas coisas? Desenvolvimento sustentável? Os países economicamente mais desenvolvidos do mundo, em geral, não possuem se quer uma árvore nativa enraizada em seus territórios. Vamos novamente escolher um candidato, agora entre duas figuras. Provavelmente o número de votos inválidos continuará próximo dos 30%, número altíssimo (maior que os votos da Marina, por exemplo) e pouquíssimo discutido. Mas nada estranho que isso aconteça, pois somos os mesmos que defendemos o meio ambiente, pregamos um Brasil potência e votamos no verde, no vermelho ou no azul, mas nada discutimos sobre os jargões que sustentam as argumentações. Só falta, agora no segundo turno, no lugar da questão ambiental, Deus ser o maior responsável pelo resultado eleitoral.

Lucas Pinto

Nada mais complicado para um sociólogo do que realizar uma auto-descrição. Isso porque esta é, provavelmente, uma das nossas tarefas cotidianas, mas com sutil diferença: buscamos o tempo todo traçar boas descrições de comportamentos sociais, e não de indivíduos. Sendo assim, diante dessa trivial tarefa, as classificações que estabelecemos com facilidade para comunidades, sociedades, etc, se tornam frágeis e pouco representativas. O que me classifica? O que me descreve?

Muitos, talvez, argumentariam que nossas profissões, religiões, origem familiar, gênero, dentre algumas outras poucas mais características seriam suficientes para compreender bastante de quem somos nós. Porém, não recorrerei ao fácil nesse esboço de auto-análise. Acredito que, melhor do que dizer o que sou e faço, ou seja, de realizar uma objetivação de mim, mostrar aquilo que não faria pode ser mais característico, honesto e representativo.

Sem mais delongas, eu seria: um sujeito que não ficará sem estudar durante grandes períodos de sua vida; provavelmente nunca serei engenheiro ou médico; nunca ficaria sem praticar esportes; alguém que não é afeito a nada autoritário, mas também não satisfeito com os moldes da democracia atual; não passaria mais de uma semana sem freqüentar alguns dos bares de Belo Horizonte; alguém que não inovaria nem mesmo a máquina de escrever... Enfim, alguém que, acima de tudo, não é.