Crueldade Justa




Enquanto todos aplaudem o assassinato do suposto sanguinário terrorista, cometido pelo alto escalão das forças armadas norte americanas, eufóricos pelo fílmico fim de um símbolo dos grupos anti ocidente, tapa-se diversas formas de autoritarismo e de estraçalhamento das relações internacionais realizadas pelo assassino, no caso, o governo americano.

Recentemente o tão falado site wiklikes divulgou informações sobre os supostos terroristas presos em Guantanamo: parte significativa de tal contingente fora lá enclausurada de forma equivocada.

Relacionemos os dois fatos, exagerando algumas das circunstâncias, para elucidar, no limite, os absurdos por trás da ação norte americana. Em primeiro lugar, ao que tudo indica, o governo paquistanês não tinha informações sobre o plano de assassinato de Bin Laden e, dessa forma, teve seu território invadido sem as devidas autorizações. Em segundo lugar, toda ação militar leva consigo o risco de produzir mais vítimas do que o planejado. A possibilidade de ceifar a vida de inocentes foi extremamente alta (e na verdade, não se sabe se, de fato, não morreram inocentes). Em terceiro lugar, a morte de símbolos dessa magnitude, em geral, desencadeiam eventos relacionados. Como Bin Laden, segundo os Estados Unidos, era um líder terrorista, supõem-se que haverá retaliações por parte dos grupos de terror. Porém, os contragolpes não serão na Casa Branca, tampouco no território americano (o que também seria uma lástima), mas sim em qualquer lugar da Europa ou America Latina, etc. Muitas outras questões poderiam ser aqui enumeradas. De todas essas questões fica a pergunta: mesmo sendo Bin Laden um assassino sanguinário, capaz de organizar ataques devastadores a milhares de inocentes (segundo dizem as versões dos “vencedores”) e de semear uma mentalidade de terror completamente cruel, seria legítima a ação americana?

Por mais que estamos na “Era do Direito” e que a humanidade tenha passado por diversas situações lastimáveis, a cada conjunto de anos passados vemo-nos diante de novas atrocidades cometidas pelas mesmas instituições que pregam a democracia. Sadam Hussein na forca, Bin Laden com um tiro na cabeça... Vejamos até onde nossa crueldade justa é capaz de evoluir.

Aplausos de tolos


Lembro-me perfeitamente de uma pergunta que fiz, ainda enquanto estudante do primeiro período de ciências sociais, a um renomado professor e pesquisador da área de segurança pública. Questionei sobre a existência de estudos voltados para compreender o porquê da violência, criminalidade, dentre outros assuntos de gênero. Tal questionamento foi feito durante um mini curso voltado para a temática da criminalidade e violência. A resposta, por incrível que pareça, soou no sentido da urgência do problema no Brasil. Compreender os porquês é extremamente complicado e demorado. Sendo assim, o mais importante, para o presente, é criar métodos capazes de entender o como acontece e, com isso, dificultar e inibir a criminalidade em locais específicos, marcadamente problemáticos.
Alguns anos se passaram e o Brasil continua convivendo com episódios de violência diariamente. Porém, ao contrário do que pode parecer, meu intuito não é publicizar minha indignação com a violência, mas sim questionar o “sucesso” da operação de combate ao tráfico de drogas recentemente ocorrida no Rio de Janeiro.
É fato que a humanidade, em qualquer época, sempre conviveu com crimes, de tal maneira que locais que possuem o privilégio de não tê-los são considerados anormais, exceções. Porém, a intensidade e sentido dos atos criminosos, em determinados locais, podem ter relação direta com as formas de determinados países encararem a questão da segurança pública. O Rio de Janeiro possui aproximadamente 1000 favelas no interior do município. Dessas, nove contam com Unidades da Polícia Pacificadora.
Seria o Capitão Nascimento um verdadeiro herói capaz de invadir e pacificar todas as 1000 favelas? Essa é uma pergunta geralmente realizada por alguns críticos, mas que considero demasiadamente branda e mal direcionada. A questão é: gostaríamos nós de ter todas as favelas do Rio de Janeiro invadidas pelas forças armadas e “pacificadas” através da violência (paradoxal, não?)?
Até quando continuaremos combatendo a violência através da famigerada polícia? Até quando nos recusaremos a compreender as causas da violência e continuaremos apoiando ações paliativas de invasões e ocupações bélicas? Até quando continuaremos espectadores de um teatro midiático repleto de interesses escusos? O mais interessante é notar a ambigüidade dos argumentos: em geral, as mesmas pessoas que criticam medidas como bolsa família, cotas em universidades, vale moradia, etc, são totalmente favoráveis às invasões da polícia. Quando o paliativo é voltado para “amançar” o pobre (e não concedê-lo locais de destaque), a classe média aplaude, feliz, como se fosse a verdadeira solução dos problemas. E assim continuamos espectadores ferozes do teatro da violência, extremamente rentável para mídia, políticos, empresas bélicas, e cemitérios.